Oscar verde: brasileira concorre ao prêmio com projeto de conservação dos micos-leões-pretos
13/02/2020 - 18:16

 Como tirar uma espécie da lista de animais ameaçados de extinção?

 

Essa é a pergunta que motiva diversas pesquisas voltadas à conservação, como a da bióloga Gabriela Rezende, que trabalha em prol dos micos-leões-pretos.

 

pesquisadora segurando mico leão preto

 

Dedicada à espécie há nove anos, a especialista coordena o Programa de Conservação do Mico-leão-preto, iniciativa do Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ). Entre os estudos realizados, destaca-se um projeto que está entre os quinze finalistas do Fundo Whitley para a Natureza, um dos mais prestigiados prêmios referentes à conservação no mundo, popularmente chamado de “Oscar Verde”.

 

avaliação de mico leão preto

O plano conta com o manejo das populações, a suplementação de recursos e a educação ambiental — Foto: Divulgação/Arquivo IPÊ

 

De acordo com a especialista, trata-se de um projeto novo, que dá continuidade ao trabalho de conectar os fragmentos florestais da paisagem do Pontal do Paranapanema. “Desde o início do programa, há 35 anos, acreditamos que cuidar do habitat é crucial para a conservação da espécie. No entanto, precisamos agir rapidamente para evitar extinções locais e garantir a ocupação dessas áreas conectadas”, diz.

Por isso, Gabriela desenhou um projeto que visa a reintrodução dos micos em áreas onde ainda não estão presentes. “O manejo das populações é uma estratégia de curto prazo para garantir que os indivíduos estejam saudáveis no futuro e possam ocupar toda a área reflorestada. Assim, preparamos o cenário para o estabelecimento de uma população grande e autossustentável”, explica. "Os corredores são o primeiro passo para revertermos a fragmentação, mas essa é uma estratégia a longo prazo. Por hora, precisamos agir e gerar um grande impacto em um prazo mais curto".

 

pesquisadora segurando mico na mão

A espécie é reconhecida como símbolo do estado de São Paulo — Foto: Katie Garrett/Arquivo Pessoal

 

O plano de ação conta com três frentes: o manejo das populações, a suplementação de recursos necessários ao mico - como árvores frutíferas e caixas-dormitório; e a educação ambiental, especialmente com a população local, alunos e professores da região.

Para a bióloga, a indicação ao Prêmio pode contribuir em diversos aspectos com a continuidade do projeto. “Além do apoio financeiro, que será crucial para a implementação do plano proposto, ser uma finalista também resulta em muita visibilidade ao projeto. Ao atrair outros apoiadores, podemos alcançar nossos objetivos, pequenos e grandes, que são fundamentais para salvar os micos”, destaca.

 

mico leão preto pendurado em árvore olhando para o céu

Atualmente o mico-leão-preto é classificado na categoria “Em Perigo” — Foto: Gabriela Cabral Rezende/

 

Conquistas

Os mais de 30 anos dedicados à conservação dos micos-leões-pretos no Pontal do Paranapanema (SP) renderam resultados importantes, como a criação de políticas públicas. “Conseguimos articular com o estado de São Paulo a criação de áreas protegidas, que incluem todas as áreas com ocorrência atual da espécie. Também tivemos o decreto do mico-leão-preto como espécie símbolo da conservação do Estado”, comenta Gabriela, que destaca ainda a criação dos corredores florestais.

 

Dois pesquisadores recolhendo dados

No início do Programa a população era de apenas 100 indivíduos — Foto: Arquivo IPÊ

 

“Finalizamos um corredor de cerca de 1.000 hectares que conecta a Estação Ecológica Mico-leão-preto com o Parque Estadual Morro do Diabo e demos início ao plantio do segundo corredor, que conectará todos os fragmentos à região que abriga a principal população de micos”, explica.

Os corredores estabelecerão uma área contínua de mais de 45.000 hectares de Mata Atlântica para micos-leões-pretos, aumentando a população na região em pelo menos 30% e reduzindo a zero o risco de extinção das pequenas populações, já que estarão todas conectadas.

A especialista reconhece o longo caminho que ainda deve ser percorrido, mas comemora as conquistas nessa luta pela conservação. “É muito gratificante ver nossos planos saindo do papel e saber que essas ações de conservação estão melhorando a situação do mico e de diversas outras espécies que compartilham esse mesmo habitat”.

 

corredor restaurado pelo IPÊ

Os corredores restaurados pelo IPÊ fazem parte de um projeto antigo, criado em 2002 — Foto: Luis Palacios/Arquivo Pessoal

 

Oscar Verde

Fundado na Inglaterra, o Fundo Whitley para a Natureza é considerado um dos mais prestigiados prêmios referentes à conservação conhecidos no mundo, atualmente. Seus objetivos principais são encontrar e financiar líderes em países pobres em recursos, mas ricos em biodiversidade que criem soluções eficazes para manutenção da natureza.

O prêmio, que completa 27 anos em 2020, já beneficiou mais de 200 projetos em 80 países com um financiamento que supera 16 milhões de libras, um valor que se aproxima dos 90 milhões de reais. Desde a origem da iniciativa, sete brasileiros já foram premiados.

 

tatu em mata

Projeto com tatu-canastra ganhou o "Oscar" em 2015 pelo trabalho de conservação — Foto: Terra da Gente

 

A cada ano, seis projetos são escolhidos entre os 15 selecionados para receberem um financiamento de 40 mil libras esterlinas, o que equivale a mais de 200 mil reais, por um ano. O dinheiro para auxiliar os projetos provém de doações de grandes instituições e fundações que vão desde o WWF até a Fundação Leonardo DiCaprio, por exemplo.

Em 2020, 112 candidatos de todo o mundo inscreveram seus trabalhos. Os 15 selecionados, que concorrem com Gabriela Rezende, são inciativas ligadas à conservação de tartarugas-marinhas, chimpanzés, rinocerontes-negros e até de anfíbios africanos.

Os vencedores deste ano serão anunciados no dia 29 de abril, às 16h no horário de Brasília e a cerimônia será transmitida ao vivo pelas redes sociais do “Fundo Whitley”.

 

anta em campo aberto

Projeto de conservação de antas no Pantanal brasileiro foi premiado em 2008 — Foto: Divulgação Incab

 

Quais são as sete iniciativas brasileiras que já foram vencedoras do “Oscar Verde”?

O primeiro brasileiro a ser premiado pelo “Oscar Verde” recebeu seu prêmio em 1999 com um projeto sobre a conservação de espécies em perigo. Coincidência ou não, o projeto visava aumentar as perspectivas de sobrevivência do mico-leão-preto.


Fonte: G1

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