Pancs: Plantas Alimentícias Não Convencionais

Plantas Alimentícias Não Convencionais (conhecidas como PANCs) são plantas com potencial alimentício e desenvolvimento espontâneo, não consumidas em larga escala ou utilizadas apenas em determinada região. Um exemplo é a Vitória-régia, planta com fruto alimentício pouco conhecido. Também podem ser consideradas PANCs partes geralmente não consumidas de plantas comuns, como por exemplo a folha da batata-doce e o coração da bananeira.

 

folhas de batata doce

Folhas de batata doce, consumidas em refogados, como o espinafre.

 

coração da bananeira

Coração da bananeira, com forma semelhante a um pinhão e textura semelhante a um palmito.

 

As PANCs costumam ser cultivadas somente por pequenos produtores e em escala doméstica. Elas abrangem desde plantas nativas e pouco usuais até exóticas e silvestres com uso alimentício direto e indireto como verduras, hortaliças, frutas, castanhas, óleos, féculas cereais e até mesmo condimentos e corantes naturais.

Grande parte das PANCs são rústicas, ou seja, dificilmente são atacadas por pragas, necessitam de pouco cuidado e podem ser fertilizadas em locais não convencionais, como beira de estradas ou terrenos baldios.

O termo PANCs foi cunhado pelo professor, pesquisador e botânico Valdely Ferreira Kinupp em sua tese de doutorado em fitotecnia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS. O termo é variável, sendo que uma planta que é amplamente consumida dentro do Brasil pode ser considerada uma PANC fora dele, acontecendo o contrário também. Essa diferença encontra-se também em regiões: em todo o país temos plantas que são consumidas somente em um pequeno território, as PANCs da Amazônia, pouco consumidas em São Paulo.

O “Manual de hortaliças não-convencionais”, lançado em 2010 pelo Ministério da Agricultura, compila 23 espécies vegetais com partes comestíveis, e auxilia no uso e na parcial identificação de PANCs. Mas é imprescindível a consulta com um especialista, pois algumas PANCs podem ser confundidas com plantas nocivas à saúde humana. Para identificar essas plantas é preciso se informar com fontes seguras sobre o assunto, uma vez que não existem regras exatas para o reconhecimento. Saber o nome científico e procurar por ele na internet pode ajudar. É perigoso se ater a nomes populares, pois, muitas vezes, plantas comestíveis e venenosas são conhecidas pelo mesmo nome. Existem, ainda, muitas características semelhantes entre plantas com propriedades distintas, podendo ocasionar confusões entre as espécies durante a identificação. Assim, deve-se tomar muito cuidado e estudar com atenção o assunto antes do consumo.

Estima-se que, no Brasil, existam cerca de 10 mil plantas com potencial alimentício - entretanto, a maioria das plantas que consumimos são exóticas. É importante, assim, conhecer as PANCs e saber utilizá-las, preservando e valorizando as espécies nativas e, ao mesmo tempo, diversificando a alimentação.

 

Exemplos de PANCs

Alfavaca – Da mesma família do manjericão, mas com folhas bem maiores, tem sabor marcante e um cheiro delicioso. Planta rica em óleos essenciais, é ótima para ser utilizada como tempero em diversos pratos. Também é empregada na medicina popular.

flores de alfavaca

 

Cambucá – Fruta docinha de casca laranja quando madura e polpa mole, de textura peculiar, o cambucá é nativo da Mata Atlântica e foi considerado em risco de extinção pelo Centro Nacional de Conservação da Flora. Seu sabor é comparado ao da jaboticaba, sendo que as duas árvores pertencem à mesma família (myrtaceae) e os frutos nascem direto no tronco da planta.

cambucá, árvore e fruto

 

Cambuci – De cor verde (mesmo maduro) e formato inusitado, o cambuci é outra fruta brasileira nativa da Mata Atlântica. Bastante ácido para ser consumido puro, é utilizado em sucos, licores, vinhos, geleias e doces.

fruto e árvore cambuci

 

Caninha do brejo, costus – Boas para os rins, muito utilizada como chá na medicina popular, as folhas também podem ser consumidas depois de refogadas.

folhas de caninha do brejo

 

Juçara – Essa palmeira nativa da Mata Atlântica estava fortemente ameaçada devido à extração predatória para a retirada de seu palmito ilegalmente. Há alguns anos, ONGs e comunidades tradicionais têm divulgado e incentivado o uso da polpa dos frutos da juçara, ricos em antioxidantes, ferro, zinco, cálcio, magnésio, gorduras boas (mono e poli-insaturadas) e antocianina, um poderoso antioxidante. Diferentemente do que ocorre com o palmito, para extrair o fruto não é preciso derrubar a árvore, que, na floresta srve de alimento para diversas espécies de animais. De cada palmeira é possível extrair cerca de dois litros de polpa por ano, para ser consumida de modo semelhante ao açaí, seu parente da Amazônia. É importante divulgar o boicote total ao palmito de jussara.

sementes a venda

 

Ora-pro-nóbis – Rico em proteínas, de boa digestão e alto valor nutricional, as folhas desta planta espinhosa são muito conhecidas em algumas regiões de Minas Gerais, onde é consumida de diversas formas, seja refogada, em sopas, no feijão ou em recheios de tortas e salgados. Também conhecida como “carne de pobre”, folhas secas de ora-pro-nóbis são moídas e utilizadas no preparo da farinha múltipla, complemento nutricional no combate á desnutrição.

folhas de ora pro nóbis

 

Pariparoba, capeba, manjerioba, malvarisco, catajé – Suas folhas mais novas podem ser preparadas refogadas ou usadas para enrolar charutinhos. Também são utilizadas em chás na medicina popular. Espécie comum no litoral paulista.

folhas de pariparoba

 

Saião, folha da costa, folha da fortuna – A planta se multiplica facilmente por meio das folhas, que brotam ao cair na terra, ou se enterrarmos parte delas. Têm sabor levemente azedo, e podem ser consumidas cruas, como salada e em sanduíches.

Taioba – Suas enormes folhas verdes são comestíveis depois de refogadas e podem enriquecer diversos pratos. O rizoma se assemelha ao cará e ao inhame, podendo ser consumido cozido. É preciso cuidado, pois há plantas muito parecidas com a taioba, porém venenosas.

Trapoeraba, Mariazinha, olho-de-santa-Luzia – Planta que pode ser consumida crua ou refogada, em sopas, para enriquecer bolinhos e pães, ou ainda preparada com arroz. Serve de alimento para outros animais além de nós, humanos. De sabor azedinho, também rende sucos e chás com propriedades medicinais.

folhas de trifólio

 

Vinagreira, quiabo azedo, roselha, roseta – Da família do hibisco, as folhas podem ser cozidas com arroz, usadas para enriquecer bolinhos e utilizadas em chás. As lindas flores são usadas em geléias, licores, chás e sucos.

folhas de vinagreira

 

Begônia – Suas flores podem ser consumidas cruas em saladas. Também caem bem com geleias e mousses.

flores de begônia

 

Dente-de-leão – Os dentes-de-leão têm muitos fitonutrientes. Possuem vitaminas A e C, e as flores e folhas podem ser consumidas. As raízes torradas também podem compor uma bebida.

dente de leão

 

Serralha – A serralha é fonte de vitaminas A, D e E e pode ser utilizada em saladas - seu sabor é parecido com o do espinafre.

flor de serralha

 

Araçá do Campo – Da família da goiaba, a fruta possui vitamina A, B e C, antioxidantes, carboidratos e proteínas.

fruto de araçá do campo

Fontes: Portal Veganismo e eCycle